domingo, 19 de fevereiro de 2012

Faltam 1370 km...

Os útimos dois dias foram com pouco ou nada de vento.
Resultado dessa convergência de massas de ar, uma mais fresca vinda da África e a outra mais aquecida vinda do continente sulamericano... dai, agua em cima da gente.
Bom pra lavar o barco e pra refrescar o calor que tem feito.
Teorias meteorológicas a parte, bem que poderiamos ter um ventinho nordeste logo para continuarmos o bom rendimento que vinhamos tendo. A previsão é que nos aproximando mais do continente o vento sopre.
Temos tido dificuldade em obtermos a carta sinotica do Brasil, pois alguma coisa parece errada com o sinal emitido pela estação da marinha brasileira, que nosso equipamento não reconhece e simplesmente não podemos baixar as imagens.
Nessa fase da viagem seria muito útil.
Nosso amigo Lauri, enviou-nos um email ontem, dizendo que existe uma frente fria a caminho, e que devera passar por Guaratuba quinta feira no final da tarde.
Dificil avaliar a situação sem ver a imagem, mas como não tenho a menor intenção de enfrentar essas velhas conhecidas frentes frias (agora pelo mar), ja estou me aproximando mais da costa brasileira que o planejado, para o caso de nos abrigarmos no caminho.
Isso deverá atrasar nossa chegada que inicialmente estava prevista para dia 25 - Sábado.
É um tanto cedo para definirmos se vamos parar e onde iremos fazê-lo, então assim que definirmos isso, postarei no blog, senão só daqui a depois de amanhã atualizarei as postagens.
A rotina a bordo continua, ontem a padaria estava a postos e tivemos pão fresco delicioso.
Nada de peixe ainda... apenas mais uma rapala que perdi (outro ser de grande porte provavelmente).
E viva as latas!
Estamos sobrevivendo bem sem a geladeira, sentindo falta claro do conforto de uma agua gelada, uma fruta mais fresca, os laticinios e carnes que tinhamos.
Mas incrível como a gente se adapta.
Ontem no início da noite o primeiro navio que avistamos... acho que de bandeira chinesa, saindo de Vitória com destino a China, via Cape Town (provavelmente levando nosso minério de ferro).

Nossa posição em 19/02/2012 as 11:39 UTC 24 16 S / 035 03 W

Tudo bem a bordo,

Z

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Faltam 1854 km...

Logo depois de eu ter atualizado o blog, Murphy atacou novamente.
Estava tudo tão bem, tempo bom, boa velejada, astral alto, o motor quando necessário parecia um reloginho suiço e etc.. apenas o peixe escaço.
Como eu ia dizendo, estava tudo bem, com as duas linhas na água na tentativa de fisgar nossa proteina, funcionamos o motor para carregar as baterias e fazer um pouco de agua. O piloto automático desacoplou quando estavamos longe dos comandos e o barco fez um "jaibe" (curva brusca) de 180 graus quase. Adivinhe.. as linhas foram parar em baixo do barco!
Até chegarmos aos comandos e desligarmos o motor, já era tarde.
Elas se enrolaram no hélice.
Eu sabia que tinhamos um problema agora, só não sabia se era grave.
O vento estava forte, e o mar um pouco alto (2.3 m), e achei melhor não arriscar entrar na agua para averiguar e esperar uma condição melhor.
A tardinha, o vento acalmou e o mar cedeu um pouquinho, "capeamos" o barco e entrei na agua de faca em punho.
Gastei mais de meia hora e pelo menos uns vinte mergulhos, com o barco batendo em minha cabeça, nadando contra a correnteza e admito com receio que um tubarãozinho faminto aparecesse. Removi muita linha, mas constatei que um anel solido de nylon se formou pelo atrito e tensão, travando o hélice. Fiz o que pude, mas não consegui remover.
Ainda bem que fomos agraciados com a melhor e mais bonita noite da travessia. Ventos favoráveis, mar tranquilo e nada de chuva.
Metade da noite passei pensando num plano de remover o anel que nos impedia usar o motor, que certamente seria necessário mais a frente pela previsão (confirmada algumas horas depois) de total falta de vento.
Por volta de meio dia de ontem o vento acalmou e o mar também.
Planejei mergulhar de aqualung desta vez, com ferramentas mais apropriadas.
Serra de metal, formão, marreta e alicate minhas armas.
Meia hora depois, muitas cabeçadas no barco e alguns cortes nas mãos estavamos livres novamente.
Removi algumas dezenas de metros de nylon, e mais dois anéis sólidos (postarei a foto no blog após a chegada).
Minha preocupaçao agora é verificar constantemente o óleo da rabeta, que pode sofrer de contaminação de agua salgada com a possível fissura do anel de vedação que foi pressionado pelos anéis da linha de nylon.
Desde ontem após isto, estamos motorando pela total de falta de vento e chuvas intermitentes, até agora.
O dia "promete" hoje ser a mesma coisa das últimas 12 horas... nada de vento e muita chuva. Provavelmente esse comportamento do tempo é pela transição do final dos ventos alíseos e o início da influência do continente brasileiro no movimento das massas de ar.
Em compensação a toda esta mão de obra e mais a perda de duas linhas e as duas melhores iscas que tinhamos, não pescamos nada.
Fiz uma nova linhada, e desde ontem esta na agua novamente, mas, nada de peixe.
Passamos a lateral de Trindade e Martin Vaz, uma das ilhas oceanicas brasileiras. Tinhamos até vontade de conhecer, mas tudo que lemos a respeito das ilhas, falam da inexistência de ancoragem segura. Pra ir lá e ficar babando de vontade de mergulhar e não poder parar... achamos melhor nem ver e seguir direto.
Esperamos melhores condições de tempo e vento a partir de domingo.

Nossa posição em 17/02/2012 as 12:09 UTC, 23 14 S / 030 19 W

Tudo bem a bordo,

Z

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Restam 2370 km...

Temos um amigo que mora em Perth - Australia, o Lauri, que tem nos ajudado muito com a meteorologia.
Ele mesmo brincou com a gente que estava a "bordo" conosco.
Fica aqui o registro de nosso agradecimento a ele pelas preciosas informações que nos passa.
Informações essas que nesta área são bem difíceis de conseguir, pois o Brasil é um dos poucos países que não existe um radio amador que faça parte da rede winlink, e somos obrigados a recorrer a estação da África ou das Canárias. A primeira não prima pelo bom serviço e a segunda, um tanto distante e congestionada.
Assim, temos tido muita dificuldade em "baixar" cartas sinóticas e até mesmo acessar nossos emails.
Temos recorrido uma vez por dia ao Iridium (telefone satelital), mas temos que economizar, pois nos restam poucos créditos do sistema pré-pago, que não há como renova-lo navegando.
Mas vida de cruzeirista é esta mesmo - gerenciar os recursos o tempo todo!
Agua, energia, diesel, comida e até comunicação.
Mas no final tem dado certo - privações a parte.
Vou aproveitar para deixar um recado aqui no blog, ao pessoal da marina porto do sol, pois não consegui resposta a meus emails - provavelmente bloqueio do servidor. Pediria que entrassem em contato com minha familia informando qual melhor data para nossa chegada e tambem os waypoints do canal, pois os que tinha de tres anos atras foram perdidos por pane em nosso sistema, e imagino que o canal deva ter mudado em tres anos, desde nossa saida.
Nossa rotina continua, tempo bom de dia, muito sol e bons ventos, mas a noite, chuvas, rajadas e um pouco de desconforto.
Nada é perfeito.
Nada de peixe - apenas uma de nossas linhas foi levada com isca, anzol e tudo o mais.
Não da pra escolher o tamanho do ser que come nossas iscas, e este deveria ser grande.
Hoje a tarde estaremos completando metade do caminho até nossa casa.
Nossa posição em 15/02/2012 as 11:35 UTC 22 05 S / 025 33 W

Tudo bem a bordo.

Z

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Restam 2800 km

O comportamento do clima continua muito parecido. Tardes e noites tranquilas , manhãs e madrugas agitadas.
Já estamos sentindo calor para dormir dentro do barco e para os turnos já despensamos uma das camadas de agasalho que geralmente usamos. Eu adoro esse calorzinho novamente...
Nada de peixe!! Incrível, acho que a natureza se revoltou com minha bronca com os atuns. Nossas frutas frescas ainda estão bem preservadas embaladas em papel de alumínio. Ótima dica para quem não tem geladeira à bordo.
Manteiga e queijo acabando e com MUITA resistência vou abrindo algumas latinhas que tanto condeno, mas dessa vez tenho que admitir que os conservantes nessa hora tem o seu valor!

Estamos bem, moral alta, mais de um terço do caminho já percorremos.

Nossa posição dia 13/02/2012 as 11:00 20 49 S / 020 38 W

Sandra

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Restam 3410 km

Nada de novo.
A não ser o comportamento do tempo nessa área.
Do final da manhã até o meio da noite, ventos ótimos, mar tranquilo e boa velejada ... mas no início da magrugada, sempre uma ou outro cumulo super-desenvolvido desagua em cima da gente, e o vento acelera.
O mar fica revolto e nossa tranquilidade vai embora.
De manhã, o dia amanhece meio nublado e vai limpando e tudo se repete.
Nenhum barco, nenhum navio, nenhum peixe.
Nada exceto um avião que passou sob nós, provavelmente de Angola para o Brasil.
Estamos nos virando sem geladeira, e a chef Sandra tem feito seus quitutes com muita criatividade.
Hoje passamos a marca de 25% do trajeto... uma boa média, mas certamente ao nos aproximarmos da costa ira baixar.
Temos aproveitado pra botar a leitura em dia, talvez hoje role seção de cinema :)

Nossa posição dia 11/10/2012 as 18:00 19 31 S / 016 04 W

Tudo bem a bordo

Z

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Restam 4020 km

Quinhentos quilometros ja foram percorridos!
Nossas postagens daqui até a chegada, serão a cada dois dias e o titulo sera sempre a kilometragem restante.
Muito bom navegar no Atlântico Sul, nessa área.
Não que o mar e o vento sejam sempre dóceis e confortáveis - ontem e hoje não estão sendo por exemplo, mas a grande diferença dos outros mares que navegamos, sempre há a preocupação constante com as perturbações meteorológicas, ventos fortíssimos (gales), swell enorme, frentes e tormentas que surgem do nada.
Aqui quase tudo é previsível, e nossa preocupação é apenas o ajuste de velas para termos mais conforto a bordo.
Ontem com o restinho de gelo que apanhamos na saida, ainda pudemos saborear agua, suco e leite gelados, porém hoje de manhã, tivemos que jogar fora toda agua dos recipientes onde estavam o gelo que derreteu.
Agora a realidade.
Ontem também, primeiro dia de comida enlatada - mini-camarões, que foram super bem preparados pela Sandra, num risoto.
Nada de peixe até agora - as linhas estão na agua desde a nossa saída.
Como não temos nenhum tipo de carne fresca, o jeito é apelar para as latas e rezar para fisgarmos algum peixe.
Os dias tem sido ótimos, cada por de sol mais bonito que o outro, e o nascer da lua cheia nestes dias, um show a parte.
O vento não para... apenas aumenta ou diminui, empurrando-nos para a costa do Brasil.
Ontem a noite uma pequena ave pegou carona com a gente por algum tempo, coitada, cansada de bater asas (a ilha mais próxima é Santa Helena - 500 kilometros).
Nossa posição em 9/02/2012 as 12:45 UTC 17 40 S / 010 35 W

Tudo bem a bordo.

Z

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Santa Helena - Rumo de casa

Exatamente 7 dias foi o tempo entre nossa chegada e nossa saída desta ilha perdida no meio do Oceano Atlântico, claro a maior parte do tempo gasta em trabalho de reparações e preparo do Tutatis para a última etapa da viagem.
Tentei de todas as formas trazer a vida a geladeira, que tanta bateria comeu nesses anos de viagem, mas foi impossível. O design do sistema, as dificuldades em encontrar componentes eletrônicos, e a burocracia sistemática do departamento de vendas ou atendimento ao cliente do fabricante em Joinville, culminaram com nosso insucesso em fazê-la funcionar novamente a despeito do esforço de nosso novo amigo Colin - técnico em eletrônica da ilha, que não mediu esforços em nos ajudar.
Agora a realidade é encarar essas 3 ou 4 semanas de travessia sem o conforto e a praticidade de alimentos frescos.
Interessante a dependência que criamos dum equipamento tão discreto como este em nossas vidas. Um bom exercício para quem nos acompanha no blog é ir ao supermercado para provisionar suas casas, e imaginar que quando escolherem os produtos para colocar no carrinho de compras, devem levar em conta que não há geladeira para guardá-los. Vão ver como as opções diminuem, e a vida fica difícil.
Tirando as dificuldades de lado, a permanência da ilha, foi uma grata surpresa.
Incrível como uma comunidade de 5000 habitantes espalhados por 120 km2, se organizam e vivem em harmonia uns com os outros. Acolhem nós turistas de forma simpática e respeitosa, fazendo-nos sentir em casa. Impossível não notar a forma como se relacionam. Todos se conhecem, se cumprimentam sempre. A prestatividade é notável.
A ilha em sua periferia é Arida, fruto da agressividade dos ventos e a maresia que castiga a costa dia e noite. Fora isso a formação vulcânica da ilha, em constante erosão, torna a costa morta.
No entanto quando excursionamos ilha a dentro (alugamos um carro para isso), nossos olhos se surpreendem com a generosidade do verde das matas e dos gramados naturais. Percorrer as estradas sinuosas e estreitas é algo emocionante, pelo eminente perigo de um encontro com outro carro em sentido contrario. Porém tudo isto é compensado com o magnífico visual dos contornos da topografia dobrada, com o fundo azul em degrade do mar.
Conhecemos um hotel fazenda e pudemos desfrutar de um almoço na varanda observado o belo visual das bem cuidadas instalações centenárias. Dentro do casarão, relíquias de móveis que foram utilizados por Napoleão Bonaparte. O proprietário foi quem nos atendeu e ele mesmo preparou e serviu nossa refeição - um britânico que cansou de trabalhar a bordo de navios como chefe de comissários ( educadíssimo por sinal).
Tivemos a oportunidade de conhecer as casas onde Napoleão ficou hospedado (exilado), e o túmulo onde ele foi enterrado. Tudo (bem) mantido pelo governo Frances.
A vila principal da ilha é JamesTown, que fica incrustada num vale entre duas grandes montanhas e exprimida pelo mar.
Muitas histórias da ilhas, muita gente importante la esteve como: Darwin, Cook, Napoleão, Princesa Ane e mais uma infinidade de nomes.
Mais história da ilha, melhor pesquisar na web, que certamente não cometera equívocos que posso estar cometendo escrevendo enquanto navegamos rumo ao Brasil.
Dia 7/02 as 11:30 UTC, levantamos nossa ancora de Santa Helena, e bem de vagar passamos ao lado de nossos amigos que la ficaram: O Pacha Mama (Top To Top), O Nephente, O Little coconut...
Um clima de melancolia e tristeza da despedida de nossa ultima ilha e nossos amigos que continuam suas viagens se confundiu com a alegria de estarmos rumando ao encontro de nossas famílias.
Subimos nossas velas e motoramos por quase uma hora, saindo fora do efeito que vento faz a sotavento das montanhas.
Assim que livramos Santa Helena os alísios entraram com generosos 15 kts, bem em nosso traves esquerdo, numa navegação bem confortável a 7 kt.
Nosso rumo é direto até Guaratuba, e esperamos tempo bom até a costa brasileira na altura de Campos (estado do Rio). Deveremos passar a costa carioca e paulista afastados 300 milhas ou mais, rumo a nosso destino.
Mais próximos do continente iremos ver como as frentes frias estarão se comportando para quem sabe mudarmos nossa estratégia.
Serão 2450 nm (quase 4500 kilometros).
Nossa expectativa é fazermos a travessia entre 19 e 21 dias.
Nossa posição em 07/02/2012 as 17:35 UTC 16 07 S / 006 19 W
Tudo bem a bordo.